Ainda sobre a OPA
Durante cinco anos, em Bruxelas, participei em inúmeras discussões sobre o relançamento da economia europeia e as garantias do funcionamento do mercado interno. Invariavelmente trabalhávamos com base em três cenários, o optimista, o pessimista e o intermédio (mesmo quando o intermédio se aproximava desoladoramente do pessimista...). Um dos consultores mais cépticos alertava invariavelmente para os riscos da decadência económica europeia e normalmente concluía as suas intervenções sempre com a mesma frase: "Pode ser que nada disto venha a acontecer! É que há tanta liquidez por aí para aplicar..."
Este episódio veio-me à memória a propósito das OPA em curso. Os números faraónicos envolvidos revelam disponibilidades financeiras no mundo empresarial que constituem, sem dúvida, prova do dinamismo da economia europeia. Mas por detrás do gigantismo das operações revelam-se alguns sintomas preocupantes.
Recentemente a Comissão Europeia divulgou um estudo muito interessante sobre os entraves à livre concorrência no mercado interno europeu em sectores regulados, especialmente no domínio da energia e das telecomunicações. E prometeu (ameaçou?) intervir no sentido de acelerar o processo de liberalização nesses sectores tal como pressuposto na própria Agenda de Lisboa da União Europeia.
A OPA da Gas Natural sobre a Endesa, seguida da OPA concorrente da E.ON, o pré- -anúncio (!) de uma intenção de OPA da Enel sobre a Suez e o apadrinhamento do Governo francês à fusão da Gaz de France com a mesma Suez desenrolaram-se num espaço de tempo recorde, provocando reacções de mercados e de entidades públicas em sentidos que só na aparência podem ser tidos como convergentes com as preocupações da Comissão.
Ou seja: operações transfronteiriças só são possíveis porque há um mercado interno europeu e porque esse mercado interno se rege por objectivos e regras comuns. Neste ponto prova-se o dinamismo económico do projecto europeu e o acerto das preocupações da Comissão.
Mas ao mesmo tempo esta dinâmica de concentração num sector como o da energia suscita a dúvida de saber em que medida é que o quadro resultante afinal corresponderá aos objectivos enunciados pela Comissão e ao pretendido benefício dos consumidores e da própria actividade económica europeia decorrente da liberalização dos mercados tal como estipulado pela Agenda de Lisboa.
A dúvida é legítima desde logo em função da assimetria do sistema. A Comissão proibiu a concentração da EDP e da GDP no mercado interno português por produzir uma entidade com poder dominante no mercado, mas eximiu-se a tomar posição sobre a OPA da Gas Natural sobre a Endesa, que tem também uma dimensão de concentração economicamente relevante no mercado espanhol (e eventualmente no futuro mercado ibérico...), deixando a decisão em causa para as autoridades nacionais espanholas. O critério formalista adoptado não sofre contestação, mas o que se prova é que a realidade económica muitas vezes escapa à lógica pura dos critérios formais. Agora, com a OPA da E.ON aguarda-se com expectativa o que dirá Bruxelas... Esta assimetria do sistema de concorrência europeu explica em parte algumas das reacções nacionais ao movimento em curso, quer do Governo espanhol quanto à OPA alemã, quer do activismo do Governo francês em promover a fusão da Gaz de France com a Suez. Em ambos os casos torna-se evidente que os governos actuaram num sentido de utilizarem mecanismos de mercado para protegerem interesses económicos nacionais ou de entidades nacionais.
No essencial o panorama com que estamos confrontados configura uma imensa luta pelo poder no sector energético, dominada por interesses económicos conflituantes e por uma forte tentação proteccionista. Neste panorama há dois grandes ausentes: o interesse geral europeu na definição de uma política energética que sirva os objectivos comuns de uma economia europeia sustentável e os interesses concretos dos consumidores europeus onde quer que eles se situem.
Eis uma oportunidade única para que a Comissão faça ouvir a sua voz em defesa destes interesses em simultâneo. Na semana em que vai apresentar as suas propostas sobre uma estratégia europeia de aprovisionamento energético, mais do que envolver-se em querelas de poder (onde o peso dos Estados sempre se faria sentir de maneira imperativa), espera-se da Comissão uma intervenção firme em defesa de valores e princípios essenciais do projecto europeu, quer em nome do relançamento económico europeu e da criação de postos de trabalho quer em defesa dos interesses dos consumidores.
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